
Este artigo trata-se de uma segunda parte de um texto publicado em novembro de 2025. Na primeira parte foi abordada a definição de cyberbullying, quais as formas deste crime, foram apresentados alguns dados sobre este fenómeno em Portugal, e quais as consequências que estas práticas podem ter, nomeadamente em pessoas LGBTQI+ (lésbicas, gays, bissexuais, trans, queer, intersexo, outras identidades de género e orientações sexuais).
Recordamos que o fenómeno de cyberbullying se trata de um ato agressivo, intencional e repetido no tempo, praticado através do uso de tecnologia (mensagens de texto, emails, comentários em Redes Sociais, partilha de conteúdos e/ou imagens sem consentimento, etc.), e tem especificidades quando é praticado contra pessoas LGBTQI+. Jovens com identidades de género não conformes ou orientações sexuais não heteronormativas enfrentam maior probabilidade de serem alvo de violência; assim como, estudantes que sentem respeito, aceitação e inclusão na Escola apresentam menos chances de serem vítimas ou praticarem qualquer tipo de violência.
Ademais, qualquer prática de violência tem implicações diretas ou indiretas nas vítimas, e até em quem assiste a estes atos. As consequências podem ser a nível psicológico e emocional (depressão, baixa autoestima e ideação suicida), comportamental (isolamento, imagem corporal negativa, medo de ir à escola) e académico (deficiente integração na escola, absentismo e baixo rendimento escolar) e, por isso, é importante falar de prevenção e de combate deste crime, sendo este o foco do presente artigo.
Entre a vulnerabilidade e a proteção: o que influencia o impacto do cyberbullying
As consequências do cyberbullying em pessoas LGBTQI+ podem ser bastante graves, porém nem todas as pessoas experienciam as mesmas consequências e/ou com a mesma intensidade. Além de analisar as consequências, é fundamental compreender quais os fatores que aumentam esta vulnerabilidade e quais os que funcionam como proteção. Identificar estes fatores é essencial para que se possa haver uma mudança.
Assim, alguns fatores de risco (aqueles que aumentam a vulnerabilidade e o impacto do cyberbullying) podem ser: Ambientes escolares sem políticas inclusivas explícitas (sentimento de insegurança, de não pertença e de não integração naquele ambiente); Normas sociais homofóbicas ou transfóbicas (imposição de padrões disseminados através de conteúdo formativo e/ou de comentários/conversas); Falta de literacia digital (mau uso das ferramentas digitais); Rejeição ou ausência de apoio familiar; Acesso a plataformas com fraca ou nenhuma moderação, onde conteúdos ofensivos e discurso de ódio circulam com maior facilidade.
Por outro lado, os fatores protetores (aqueles que atenuam o risco de ocorrer cyberbullying e/ou minimizam as suas consequências) podem ser: Aceitação familiar; Políticas escolares inclusivas (que mencionem explicitamente orientação sexual e identidade de género); Redes de apoio entre pares (Grupos estudantis inclusivos/ Comunidades online moderadas); Literacia digital e competências de segurança online (sensação de controlo das próprias ações online).
Desta forma, compreender os fatores de risco e de proteção ajuda-nos a perceber porque é que o impacto do cyberbullying não é igual para todas as pessoas. Neste seguimento, é importante referir, ainda, que estudos mostram que a exposição contínua ao preconceito e à discriminação aumenta o risco de sofrimento psicológico e esta é mais uma dimensão que influencia profundamente o desenrolar destas situações: a decisão de reportar e pedir ajuda.
No entanto, a denúncia não é um gesto simples nem automático. Pelo contrário, é uma decisão moldada precisamente pelos fatores anteriormente descritos.
É neste ponto que surge uma questão central: denunciar ou não denunciar?
Denunciar ou não denunciar: eis a questão
Nos diversos estudos feitos sobre violência, nomeadamente cyberbullying, percebe-se que a maioria das vítimas não denunciam/pedem ajuda. Há várias razões para isto acontecer e algumas estendem-se a todas as vítimas e não apenas às pessoas LGBTQI+. As razões principais são: medo, vergonha, receio de lhes ser atribuída a culpa do ato violento e crença de que vai haver menosprezo pela situação.
No que concerne especificamente às pessoas LGBTQI+ vítimas de cyberbullying, estas não reportam ao pai/à mãe/entidade cuidadora por:
- receio que o acesso à internet lhes seja restrito;
- crença de que o pai/a mãe não podem fazer nada para alterar a situação;
- receio de que contar a alguém possa agravar a situação e/ou arranjar outro tipo de problemas;
- crença de que o pai/a mãe/entidade cuidadora não vão dar suporte e apoio;
- receio de expor a sua orientação sexual/identidade de género.
Por outro lado, as situações de cyberbullying não são reportadas a algum membro da comunidade escolar por:
- receio de expor a sua orientação sexual/identidade de género;
- receio que não haja confidencialidade em relação à sua orientação sexual/identidade de género e a mesma seja exposta a outros membros da Escola ou até a familiares;
- não haver segurança nos membros da Escola, devido aos atos de violência serem praticados por docentes/não docentes.
Porém, denunciar é fundamental e, apesar da denúncia ser um passo essencial, não é suficiente por si só. E é neste ponto que devemos questionar e, consequentemente, tentar compreender o porquê de tantas vítimas permanecerem em silêncio. Este questionamento ajuda-nos 1) a perceber que não basta incentivar a denúncia e 2) por trás de uma denúncia existe sempre um lugar de segurança, de apoio e de conforto. É precisamente neste ponto que se tornam centrais as estratégias e boas práticas de prevenção e combate ao cyberbullying contra pessoas LGBTQI+.
Prevenir e combater o cyberbullying contra pessoas LGBTQI+: uma responsabilidade coletiva
Se denunciar é um mecanismo de proteção individual, prevenir é uma responsabilidade coletiva. Existem várias formas de prevenção e de combate e todas partem de um plano concertado entre a existência de:
- políticas inclusivas – é essencial que nos diversos setores existam, além de empatia e respeito, regulamentos e políticas que protejam pessoas LGBTQI+ e, simultaneamente, ajudem a assegurar os seus direitos (seja o uso do nome social, o uso de pronomes escolhidos pela pessoa, o uso de balneários/casas de banho correspondentes ao seu género, etc.). Sublinhamos a importância destes documentos reguladores nas Escolas (sem menosprezar os outros setores), pois falamos em idades precoces, quando crianças/jovens estão a descobrir/questionar a sua identidade e é essencial haver uma resposta de apoio;
- educação para a diversidade – falamos, agora, de campanhas de sensibilização e da inclusão de conteúdos programáticos que versem temas como orientação sexual, identidade e expressão de género e características sexuais (OIEC) nas várias disciplinas, bem como o incentivo ao envolvimento das famílias aquando das campanhas acima referidas. Haver a inclusão destes temas faz com que haja maior visibilidade das pessoas LGBTQI+, a par de maior consciencialização e empatia para com pessoas LGBTQI+;
- formação de profissionais – se é importante falar com estudantes sobre estes temas, é igualmente essencial que Docentes, Não Docentes e demais profissionais que lidam com crianças/jovens e que estão no atendimento ao público nos diversos setores estejam atualizadas sobre as temáticas OIEC (e de outros temas relacionados) para que possam, assim, conseguir apoiar e fazer os encaminhamentos mais adequados a cada situação;
- programas de literacia digital – como falamos em cyberbullying, é fundamental que haja, e cada vez mais, programas que não só frisem os perigos da internet, mas também que ensinem como usar as ferramentas ao seu alcance para se protegerem online (por exemplo, como bloquear e denunciar a(s) pessoa(s) agressoras na plataforma onde ocorreu a agressão), bem como indiquem outras com o mesmo fim. Por outro lado, era importante que a própria Escola, por exemplo, criasse grupos/plataformas monitorizadas para que estudantes pudessem discutir temas de interesse comum, procurar informação fidedigna e partilhar/organizar eventos de forma controlada.
Conclusão
O cyberbullying contra pessoas LGBTQI+ é uma realidade com impactos sérios na vida das suas vítimas, no entanto não são inevitáveis. Existem fatores que aumentam a vulnerabilidade e outros que funcionam como proteção perante as agressões. Identificar estes fatores é essencial para que se possa perceber melhor o fenómeno e aplicar uma estratégia eficaz de prevenção e intervenção.
Denunciar é um passo importante, porém este só é um passo válido quando as vítimas sentem que têm suporte e sentem que estão inseridas em contextos seguros, de apoio e de confiança. Por isso, prevenir e combater esta forma de violência exige mais do que respostas pontuais: exige políticas inclusivas, educação para a diversidade, formação adequada de profissionais e promoção da literacia digital.
Por outro lado, criar estes contextos — online e offline — é uma responsabilidade coletiva, exigindo o envolvimento das famílias, dos/as profissionais, das Instituições.
Combater o cyberbullying é, acima de tudo, afirmar o direito de cada pessoa a existir com dignidade, segurança e autenticidade.
Sofia Moreira
*Este artigo encontra-se inserido no Projeto “O Poder das Palavras – Conferência sobre Cyberbullying contra pessoas LGBTQI+”, financiado pela CIG, no âmbito do Apoio Técnico e Financeiro a Organizações da Sociedade Civil LGBTI+ 2025, e integra o ciclo programático da Estratégia Nacional para a Igualdade e a Não Discriminação 2018 2030 – Portugal + Igual (ENIND).
Locais para fazer denúncia
CIG (Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género) – www.cig.gov.pt
116 006 – Linha gratuita para apoio da APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima);
800 202 148 – Linha para apoio de vítimas de violência doméstica;
966 090 117 – Linha de apoio de vítimas de violência doméstica LGBTI+ (Casa Arco-Íris);
960 081 111 – Linha de apoio a vítimas de violência doméstica LGBTI+ (Casa Qui);
300 515 617 – Linha de apoio do Núcleo de Atendimento às Vitimas de Violência Doméstica do Distrito de Viseu;
910 846 589 – Linha de apoio a homens e rapazes vítimas de violência e abuso sexual (Quebrar o Silêncio)
PSP, GNR – da sua área de residência
Polícia Judiciária (PJ) – Queixa Eletrónica
Portal de Queixa Eletrónica do Ministério da Administração Interna – QUEIXA ELETRÓNICA – Queixa Eletrónica
Referências
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O’Driscoll, A. (2020, May 22). LGBTQ cyberbullying: A guide for parents and educators. Comparitech. Preventing LGBTQ cyberbullying: A guide for parents & educators
Sándor, B. (2021). Como prevenir e combater a violência contra crianças e jovens LGBTI+ e de género diverso. Centro de Estudos Sociais – Universidade de Coimbra.
The Trevor Project. (n.d.). The Trevor Project. The Trevor Project – Suicide Prevention for LGBTQ+ Young People
