Famílias que Amam


No Dia Internacional da Visibilidade Trans, partilhamos um testemunho que nos chegou recentemente, um texto escrito por uma mãe, movida pela preocupação, pelo amor e por um profundo sentido de urgência.

Num momento em que o debate público em Portugal tem sido marcado por propostas legislativas que afetam diretamente a vida de pessoas trans, em particular crianças e jovens, esta mãe sentiu necessidade de transformar a sua angústia em palavras. O seu apelo nasce da experiência pessoal, mas fala para uma realidade coletiva: o impacto muito concreto que decisões políticas e discursos públicos podem ter no bem-estar, na dignidade e na segurança de pessoas trans.

Importa também sublinhar que, apesar das recentes aprovações parlamentares, estas medidas ainda terão um percurso institucional a cumprir, podendo ser objeto de apreciação, alteração ou mesmo veto. Entretanto, a legislação atualmente em vigor, nomeadamente a lei 38/2018 de Autodeterminação de Género, continua a ser o enquadramento legal aplicável.

Ao partilharmos este texto, fazemo-lo com o propósito de amplificar uma voz que pede empatia, respeito e humanidade. Num dia dedicado à visibilidade, acreditamos que escutar é também uma forma de agir.

“Olá!

No passado dia 20 de março foram aprovados projetos de lei no parlamento com os votos do PSD, Chega e CDS-PP que têm como objetivos limitar o direito à autodeterminação de jovens trans e proibir tratamentos médicos validados por múltiplas organizações de saúde internacionais e nacionais credíveis, restringindo assim a liberdade da prática médica.

Na semana passada várias pessoas da classe médica desmentiram os artigos científicos em que Chega, PSD e CDS se basearam.

https://sapo.pt/artigo/identidade-de-genero-vai-se-criar-um-mercado-negro-de-hormonas-69c57bd05bdf7b83e1f5f5ff e https://www.jpn.up.pt/2026/03/26/especialista-critica-alteracoes-a-lei-da-autodeterminacao-de-genero-e-uma-coisa-nitidamente-ideologica/

são apenas dois de vários exemplos.

Inclusive, na semana passada, o polígrafo da SIC, no jornal da noite, veio desmentir afirmações dos partidos políticos de direita. Menos de 5% –  9% se arrependem da transição. Não são os 90% falados na AR.

https://sicnoticias.pt/sicverifica/2026-03-23-video-cerca-de-90-das-pessoas-que-sofrem-de-disforia-de-genero-arrepende-se-e-volta-a-identificar-se-com-o-sexo-biologico–63c74b45

Ninguém com idade inferior a 18 anos faz cirurgias de mudança de sexo!

Em Portugal não há estudos que indiquem que pessoas trans se tenham arrependido da transição.

Imaginem o que é alguém vos dizer agora que têm de ser, vestir, comportar, com o outro género diferente do vosso. Tentem fechar os olhos e imaginar isso durante uns minutos. Não conseguem, pois não?

Se uma mulher tiver um problema de saúde e tiver de operar as mamas, essa mulher é menos mulher? Se um homem perder os testículos ou o pénis, deixa de ser homem?

Quem nos dita a identidade é o cérebro, podendo haver incongruência entre o sexo biológico e o género. Provado cientificamente.

Estudos médicos indicam que as pessoas reconhecem a sua identidade por volta dos 3 anos de idade, ou seja, é por volta dos 3 anos que o nosso cérebro indica se somos menino, menina, ou outra identidade de género…

As crianças e jovens trans são pessoas como nós, que têm o direito de se autodeterminar e de receber os tratamentos médicos necessários. 

Se as crianças e jovens só puderem ser quem realmente são aos 18 anos, como estas propostas de lei pretendem, se lhes for retirado todo o apoio médico e psicológico, há uma forte probabilidade de crianças e jovens trans sofrerem de depressão, ansiedade, autoflagelo e suicídio (As tentativas de suicídio de jovens trans é 4 a 10 vezes superior que outra pessoa jovem que se identifique com o sexo atribuido à nascença).

Enquanto cidadã e mãe sinto-me obrigada a passar esta informação a todas as pessoas.

As crianças e jovens trans, tendo em conta a sua situação, têm já de si existência difícil e pretendem fazer o seu caminho de forma discreta e livre de perseguições. Tentando passar despercebidas, fazendo uma ginástica terrível para se sentirem enquadradas na sociedade.

Recomendo a todas a pessoas que acreditam no estado de direito, na liberdade de cada pessoa ser quem é e numa prática médica independente, que se informem sobre esta situação, que não acreditem em tudo (jovens não fazem operações antes dos 18, jovens não mudam de nome nem género no CC antes dos 16 sem autorização de responsáveis legais e sem parecer médico), usando fontes credíveis de informação e que se manifestem na tentativa de preservação de uma democracia, que respeite todas as pessoas e em que a classe médica possa cumprir o juramento de Hipócrates, sendo livres de praticar a leges artis, de acordo com o que consideram ser o melhor para as pessoas que os procuram.

Recordo que a lei atual, Lei 38/2018, ainda está em vigor.

Famílias que Amam

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