CULTURA 2026

O retrato de Mr. W.H.

Livro | Contos

18 de Maio de 2026

O Retrato de Mr. W.H., de Oscar Wilde, é um livro que nos agarra não pela ação, mas pelo mistério e pela inteligência com que é construído. Wilde, conhecido pelo seu humor e elegância, mostra aqui um lado mais enigmático, e igualmente fascinante.

A obra gira em torno de uma ideia curiosa e quase obsessiva, que leva as personagens a questionarem o significado da arte, da verdade e até da própria identidade. Sem nunca revelar demasiado, o autor vai criando uma atmosfera intrigante, que faz com que queiramos continuar a ler só para perceber até onde tudo aquilo pode ir.

O mais interessante neste livro é o seu tom. Há um certo charme em cada página, aquele estilo refinado e irónico que é tão característico de Wilde. Mesmo quando o tema parece complexo, a escrita mantém-se envolvente e até divertida em certos momentos.

Não é um livro cheio de acontecimentos rápidos, mas sim de ideias que se vão desenrolando com cuidado, o que faz com que a leitura seja mais profunda, quase como um jogo, em que quem lê tenta descobrir o que é real e o que é apenas imaginação.

Apesar de não ser tão conhecido como outras obras do autor, O Retrato de Mr. W.H. tem um encanto muito próprio. É um livro que desafia quem lê, mas que também recompensa com uma experiência única e diferente.

Vale a pena ler, especialmente se gostas de mistério, arte e histórias que te fazem pensar para além do óbvio.

Tár

Filme | Drama

11 de Maio de 2026

O filme TÁR, protagonizado por Cate Blanchett, é daqueles filmes que cresce enquanto o vemos. À primeira vista parece apenas um drama sobre música clássica e uma maestrina famosa, mas rapidamente se percebe que fala muito mais sobre poder, ego, identidade e a forma como lidamos com a imagem pública nos dias de hoje.

Cate Blanchett tem uma interpretação impressionante, cheia de presença e pequenos detalhes, sem nunca precisar de exagerar. A personagem Lydia Tár é fascinante precisamente porque não é fácil de definir pois é brilhante, controladora, vulnerável e desconfortável ao mesmo tempo. Isso torna o filme interessante até para quem não liga nada a música clássica.

Embora não seja um filme “LGBTI+” no sentido mais tradicional, vale a pena pela forma natural como apresenta uma personagem lésbica num lugar de enorme prestígio e poder, fugindo aos clichés habituais. O filme não tenta dar lições nem simplificar temas complicados, e talvez seja isso que o torna tão atual.

É um filme que deixa espaço para quem vê pensar e tirar as suas próprias conclusões. Não entrega tudo de forma óbvia, mas sem nunca se tornar demasiado complicado ou pretensioso. Tem momentos tensos, diálogos fortes e uma atmosfera que prende até ao fim.

Vale a pena ver porque é diferente do habitual, é inteligente sem ser arrogante, intenso sem precisar de ação constante, e com uma grande interpretação.

Em Portugal, neste momento, o filme só está disponível em plataformas como Apple TV, Rakuten TV e Amazon Video.

Um quarto só Seu

Livro | Ensaio

04 de Maio de 2026

Quando pensamos em leitura hoje em dia, é impossível ignorar a influência de plataformas como o BookTook. Muitos livros ganham fama rápida, com histórias envolventes e fáceis de ler. Mas a verdade é que limitar-nos a esse tipo de leitura é perder a oportunidade de descobrir mundos muito mais ricos e desafiantes. É precisamente aqui que entra Um Quarto Só Seu, de Virginia Woolf.

À primeira vista, este livro pode parecer complicado. Não tem uma história tradicional, nem personagens que seguimos do início ao fim. Em alguns momentos, pode até parecer aborrecido. Woolf escreve de forma muito reflexiva, quase como se estivesse a pensar em voz alta. E isso pode ser estranho para quem se habituou a narrativas rápidas e diretas.

Mas é exatamente isso que torna o livro especial.

Um Quarto Só Seu fala sobre algo que ainda hoje é relevante, o lugar das mulheres na literatura e na sociedade. Woolf defende que, para uma mulher conseguir escrever, precisa de independência, simbolizada por “um quarto só seu” e algum dinheiro. Parece simples, mas na altura (e, em muitos casos, ainda hoje) não era.

Mais do que um ensaio sobre literatura, este livro é um convite a pensar. E pensar pode dar trabalho, talvez por isso pareça “chato” às vezes. Mas é um “chato” que vale a pena. Porque nos obriga a questionar o mundo à nossa volta, a perceber desigualdades e a valorizar vozes que muitas vezes foram ignoradas.

Ler livros diferentes, com estilos diferentes, é fundamental para desenvolver o pensamento crítico. Não nos devemos prender apenas aos livros que estão na moda. Ler Woolf, mesmo que seja mais difícil, ajuda-nos a crescer literariamente, e como pessoas. Ensina-nos que a literatura não serve só para entreter, mas também para abrir horizontes.

Por isso, vale a pena ler Virginia Woolf, apesar de poder ser um pouco exigente. Pode até parecer aborrecida em certos momentos. Mas dar-lhe uma oportunidade é entrar num mundo mais profundo, mais questionador e muito mais enriquecedor.

E no fim, é isso que a leitura deve ser, uma forma de conhecer melhor o mundo, bem como a nossa capacidade de o interpretar.

Free Fall

Filme | Romance

27 de Abril de 2026

As histórias queer são complexas, humanas e merecem ser vistas. Free Fall, é um daqueles filmes que simplesmente te deixa sentir, às vezes de forma desconfortável, mas honesta.

Este filme acompanha um polícia com a vida “alinhada”: carreira estável, relação definida, futuro planeado. Até que algo muda, não de forma explosiva, mas subtil, quase silenciosa. O filme pretende demonstrar que a identidade não é uma coisa fixa, nem sempre cabe nas caixas que a sociedade espera.

O que mais marca aqui não é só a história (que podia cair facilmente em clichés), mas a forma crua como é contada. Não há grandes discursos, não há respostas fáceis. Há tensão, confusão, desejo, culpa, tudo ao mesmo tempo. E isso torna-o real, porque por vezes a vida não é apenas simples, mas também desconfortável, o que torna tudo mais real.

Free Fall não é só um filme “sobre ser gay”. É um filme sobre o conflito entre quem és e quem esperam que sejas. E isso toca diretamente em muitas experiências dentro da comunidade LGBTI+, especialmente quando falamos de pressão social, masculinidade e medo de perder tudo.

Acreditamos que histórias como esta ajudam a normalizar vivências que durante muito tempo foram escondidas ou reduzidas a estereótipos. Mesmo quando não são perfeitas, abrem espaço para conversa, e isso é essencial.

O filme é intenso e pode até ser “pesado”, mas ao mesmo tempo muito marcante e emocional. Não é aquele filme leve de domingo à tarde. Mas é daqueles que ficam contigo.

Se vale a pena ver? Sim, especialmente se queres explorar cinema LGBTI+ que não trata o tema de forma superficial. Não é um conto de fadas. É mais um espelho meio desconfortável… mas necessário. Não encontrámos o filme em nenhum canal de tv, pago ou gratuito.

Na Casa dos Sonhos

Livro | Romance

20 de Abril de 2026

Na Casa dos Sonhos, de Carmen Maria Machado, é um livro que foge completamente ao habitual, e é precisamente isso que o torna tão marcante.

Não estamos perante uma narrativa linear ou tradicional. Em vez disso, a autora constrói a história como se fosse um conjunto de fragmentos, quase como memórias espalhadas que se vão juntando pouco a pouco. Este estilo pode parecer estranho ao início, mas rapidamente se transforma numa das partes mais interessantes da leitura.

O livro explora temas intensos e pessoais, mas fá-lo de uma forma muito criativa. Cada capítulo tem uma abordagem diferente, o que mantém a leitura sempre fresca e imprevisível. É como se estivéssemos a olhar para a mesma realidade através de vários “filtros”, cada um com uma nova perspetiva.

A escrita de Machado é direta, mas ao mesmo tempo cheia de significado. Há momentos que podem ser desconfortáveis, mas isso faz parte da força do livro, não é uma história feita para ser fácil, mas sim para ser sentida e pensada.

O que realmente distingue Na Casa dos Sonhos é a sua originalidade. É um livro que quebra regras e expectativas, e que nos faz questionar a forma como as histórias podem ser contadas. No final, ficamos com a sensação de ter lido algo único.

Vale a pena ler, especialmente se gostas de livros diferentes, que arriscam e que ficam na cabeça muito depois de os terminares. Se te provocou curiosidade procura-o na livraria que estiver mais perto de ti.

Chavela

Documentário

13 de Abril de 2026

O documentário Chavela conta a história de Chavela Vargas, uma cantora mexicana muito talentosa, mas também uma mulher que enfrentou muitas dificuldades ao longo da vida. Desde cedo, Chavela teve de lidar com preconceitos por não seguir as normas da sociedade, especialmente por causa da sua identidade e da forma como expressava o amor.

Ao longo do filme, percebe-se que a diversidade, sobretudo no que concerne às questões LGBTI+, nem sempre foi respeitada. Chavela foi muitas vezes julgada, excluída e até esquecida. Isso mostra bem as dificuldades que muitas pessoas LGBTI+ enfrentam: discriminação, falta de oportunidades e pressão para esconder quem realmente são.

No entanto, o documentário também mostra a força e coragem de Chavela. Mesmo com todos os obstáculos, ela nunca deixou de ser quem era. A sua vida representa a luta de muitas pessoas que ajudaram a construir um mundo mais justo, onde hoje existe mais liberdade e mais direitos, embora ainda haja muito a melhorar.

Chavela não é apenas sobre música, mas sobre identidade, resistência e coragem. Faz-nos pensar sobre o passado e perceber que os direitos que existem hoje foram conquistados graças à luta de pessoas como ela. É um filme importante, especialmente para as pessoas mais jovens, porque ajuda a compreender a importância do respeito e da igualdade.

O documentário está disponível no catálogo da Netflix, para quem tiver o serviço.

Caderno Proibido

Livro | Poesia

07 de Abril de 2026

Há livros que chegam até nós como se fossem pequenos segredos finalmente revelados. Caderno Proibido, de António Botto, é precisamente isso, um conjunto de poemas que ficaram escondidos durante décadas, e que só agora veem a luz do dia. Estes textos foram publicados pela primeira vez em janeiro deste ano, numa edição organizada e prefaciada por Victor Correia.

António Botto foi considerado pelas figuras criticas como um escritor polémico da literatura portuguesa. Para muitas pessoas a sua escrita era considerada escandalosa, devido à forma como escreveu sobre desejo, amor e beleza masculina, numa época em que isso escandalizava muita gente. Em Caderno Proibido, encontramos um Botto ainda mais direto, mais carnal e mais livre. Há textos que podem surpreender pela frontalidade, por vezes eróticos, por vezes provocadores, mas sempre marcados por uma voz poética muito própria.

Mais do que um simples livro de poesia, esta obra funciona quase como um documento literário. É como abrir um caderno íntimo de um autor que foi fundamental para a história da poesia portuguesa. E talvez seja isso que torna esta leitura tão interessante, perceber que a literatura também se faz de vozes que desafiaram as normas do seu tempo.

A edição organizada por Victor Correia (investigador que tem dedicado parte do seu trabalho às questões da diversidade e da história LGBTI+), ajuda também a contextualizar estes textos e a compreender melhor o lugar de Botto na literatura e na cultura portuguesa.

Ler Caderno Proibido é, no fundo, entrar num território onde poesia, desejo e liberdade se cruzam. Não é apenas um livro de poemas, é a redescoberta de um autor que nunca teve medo de escrever aquilo que sentia. E talvez seja precisamente por isso que continua a ser tão atual.

Moonlight

Filme | Romance | Drama

30 de Março de 2026

“Moonlight” não é só um filme, é uma experiência. Calmo, íntimo e brutalmente humano, conta a história de Chiron ao longo de três fases da vida: infância, adolescência e idade adulta. É sobre crescer, descobrir quem somos e tentar sobreviver quando o mundo à nossa volta não facilita nada.

Não esperes um filme cheio de ação, aqui tudo é silêncio, emoções e momentos pequenos que dizem muito. E é exatamente isso que o torna tão forte.

O filme é lindo visualmente (a fotografia é absurda), e muito sensível na forma como mostra identidade, masculinidade, vulnerabilidade e solidão. Nada parece exagerado, tudo é real, cru e honesto.

A narrativa em três partes funciona mesmo bem, porque vemos como as experiências moldam a pessoa que Chiron se torna. E há cenas que ficam na cabeça (a do mar… quem viu sabe). A banda sonora aliada ao silêncio tem um impacto emocional gigante.

É um filme lento e contemplativo. Quem gosta de histórias rápidas pode achar parado. Também não explica tudo, muita coisa fica nas entrelinhas, o que para algumas pessoas é arte e para outras é confuso.

“Moonlight” é simples na história mas enorme no sentimento. Não grita, não exagera mas atinge fundo. É daqueles filmes que ficam contigo depois de acabar. Super sensível, intenso e mesmo bonito.

O Vigilante

Livro | Romance

23 de Março de 2026

Há livros que, à primeira vista, parecem intimidar. Pela espessura, pelo ritmo da escrita ou simplesmente pelo nome da autora, que já sabemos que não escreve histórias rápidas ou superficiais. O Vigilante, de Sarah Waters (título original The Night Watch), é um desses livros. Mas também é um daqueles que provam que, às vezes, quanto mais nos demoramos numa história, mais ela nos recompensa.

Situado em Londres durante e após a Segunda Guerra Mundial, o romance apresenta-nos várias personagens cujas vidas se cruzam de formas inesperadas. No início pode parecer que estamos apenas a observar fragmentos de vidas, pessoas que trabalham, que sobrevivem, que lidam com perdas, segredos e amores complicados. Mas, à medida que avançamos na leitura, percebemos que cada gesto, cada silêncio e cada memória tem peso.

Sarah Waters tem uma forma muito particular de escrever: não tem pressa. Constrói as suas histórias com calma, como quem monta um puzzle peça a peça. Por vezes isso torna a leitura mais densa, mas é precisamente aí que reside o encanto. As personagens não são heroínas perfeitas nem vilãs óbvias. São profundamente humanas, cheias de falhas, dúvidas e decisões difíceis. E é essa humanidade que nos prende.

Ao longo do livro encontramos pessoas capazes de egoísmo, de erros e de escolhas questionáveis, mas também de gestos inesperadamente generosos ou corajosos. Waters lembra-nos que, em tempos difíceis, as pessoas revelam lados que nem elas próprias sabiam que existiam.

Sem revelar demasiado, O Vigilante é um livro sobre vidas comuns num tempo extraordinário. Fala de amor, de identidade, de sobrevivência e das marcas que os acontecimentos deixam nas pessoas. É também uma história sobre como o passado molda o presente, e sobre como cada pessoa guarda segredos que podem mudar tudo quando finalmente vêm à luz.

Pode não ser um livro para ler à pressa. Mas é precisamente por isso que vale a pena. Porque, no meio das páginas mais longas e da escrita cuidadosa de Sarah Waters, descobrimos personagens que parecem reais, histórias que ficam connosco e um retrato de uma época que continua a ecoar no presente.

E talvez seja essa a melhor forma de olhar para livros como este: não como algo assustador pelo tamanho ou pela escrita mais elaborada, mas como uma porta para conhecer outras vidas, outros tempos e outras formas de ver o mundo. No fundo, ler é sempre isso, um convite à curiosidade. O livro já há muito que se encontra esgotado, contudo, podem sempre adquirir em segunda mão.

Notes of Autum

Filme | Romance

18 de Março de 2026

Há filmes que nos surpreendem pela complexidade. Outros, pela inovação. E depois há aqueles que, mesmo sendo um bocadinho cliché e com aquele sabor assumidamente “categoria B”, conseguem alegrar um pouco os nossos dias. Notes of Autumn é exatamente isso.

Sim, a premissa não reinventa a roda. Há encontros improváveis, silêncios cheios de significado, olhares demorados e decisões difíceis. Mas reduzir este filme a “mais uma história romântica de outono” seria injusto, e até um bocadinho preguiçoso.

Porque Notes of Autumn não fala só de amor entre pessoas. Fala das paixões que deixamos na gaveta. Da música que parámos de tocar. Do curso que não seguimos. Do sonho que adiámos “só por enquanto”, e que acabou esquecido entre contas para pagar, expectativas alheias e inseguranças que crescem mais depressa do que a coragem.

O filme mergulha nessa frustração silenciosa de quem já desistiu de si sem dar por isso. E é aí que ganha força. No meio de diálogos simples e momentos previsíveis, há uma mensagem que bate fundo: nunca é tarde para recuperar aquilo que nos faz sentir com vida.

A estética outonal, com folhas a cair, tons quentes, aquela melancolia bonita, ajuda a criar o ambiente perfeito para esta reflexão. É quase como se o cenário dissesse: deixar ir faz parte, mas também faz parte recomeçar.

Claro que há momentos exagerados. Claro que há cenas que parecem saídas de um telefilme de domingo à tarde. Mas e então? Às vezes precisamos mesmo disso. De histórias diretas, emotivas, sem cinismo. Histórias que nos lembram que o amor é importante, sim, mas que a paixão pelo que fazemos é igualmente essencial.

No fundo, Notes of Autumn é aquele filme que se vê numa tarde tranquila, talvez com uma manta e chá quente, mas que fica a ecoar depois dos créditos finais. Não porque seja perfeito, mas porque nos faz perguntar: “O que é que eu deixei para trás que ainda posso ir buscar?”

E só por isso, já vale a pena ver. Para quem goste deste tipo de filmes, ou tenha simplesmente curiosidade, pode apanhá-lo no canal Star Life.

Vigílias

Livro | Poesia

09 de Março de 2026

Em 2004 foi publicado Vigílias, uma reunião de textos e poemas de Al Berto, um dos nomes mais intensos da poesia portuguesa contemporânea. À primeira vista, pode parecer um livro distante do ritmo das gerações mais jovens: denso, introspectivo, por vezes melancólico. Num tempo dominado por scrolls rápidos, notificações e vídeos de poucos segundos, um livro que pede silêncio e demora parece quase um gesto de resistência.

Mas talvez seja precisamente por isso que Vigílias continua a ser necessário.

A escrita de Al Berto vive de noites interiores: da solidão, da procura de identidade, do desejo de pertencer e da inquietação perante o mundo. Quem lê encontra páginas onde o corpo, a cidade, a memória e o medo da perda aparecem entrelaçados numa linguagem íntima e quase confessional. Embora escritos noutra época, muitos destes sentimentos são surpreendentemente próximos da experiência de quem hoje cresce num mundo acelerado, fragmentado e muitas vezes solitário.

Para muitas pessoas, a poesia pode parecer distante ou “difícil”. Mas Al Berto nunca escreveu para criar distância: escreveu para expor fragilidade, desejo e inquietação. E essas são experiências profundamente contemporâneas. As suas palavras falam de noites longas, de amizades intensas, de amores incertos, de procurar um lugar no mundo, temas que continuam a atravessar qualquer geração.

Ler Vigílias não é apenas ler poesia; é entrar num espaço de pausa num mundo que raramente pára. É aceitar que algumas frases não se entendem à primeira leitura e que certas emoções só aparecem quando nos demoramos nelas. Num tempo em que tudo é imediato, esse gesto de lentidão torna-se quase revolucionário.

A importância da obra de Al Berto na literatura portuguesa está também nessa honestidade radical. A sua escrita abriu caminhos para uma poesia mais íntima, mais vulnerável e mais livre na forma como aborda o corpo, o desejo e a experiência individual. Ao fazê-lo, deixou um legado que continua a influenciar quem lê e quem escreve.

Talvez o maior convite de Vigílias seja simples: voltar a escutar o silêncio entre as palavras. Porque alguns livros não foram feitos para serem consumidos rapidamente, foram feitos para nos acompanhar, como uma conversa nocturna que continua muito depois de fecharmos o livro.

E é por isso que, mais de duas décadas depois da sua publicação, Vigílias continua desperto. À espera de quem o leia e se atreva a parar e a escutar.

Ghosting: The Spirit of Christmas

Filme | Romance – Drama

23 de Fevereiro de 2026

Se estás à procura de um filme leve, divertido e perfeito para uma noite descontraída (com manta e snacks obrigatórios), Ghosting: The Spirit of Christmas (2019) pode ser exatamente aquilo que precisas.

Realizado para televisão e assumidamente com aquele charme de “série B” natalícia, o filme não tenta ser mais do que é, e ainda bem. Aqui, o espírito é leve, colorido e romântico, mas com um toque sobrenatural que lhe dá graça extra. A história acompanha Jess (interpretada por Aisha Dee), uma jovem que acorda como fantasma e descobre que tem pouco tempo para resolver assuntos pendentes antes de “seguir em frente”. Pelo caminho, cruza-se com a sua amiga Kara (Kimiko Glenn) e quase desconhecido Ben (Kendrick Sampson), formando um trio improvável que sustenta o coração da narrativa.

O que torna este filme curioso não é apenas o romance, embora ele esteja lá, com direito a olhares intensos e momentos dignos de comédia romântica, mas a forma como explora o amor nas suas várias dimensões. Não é só sobre paixões repentinas ou sobre aquele cliché de “encontrar a tal pessoa” no Natal. É também sobre ligações que nos definem, sobre as pessoas que escolhemos manter na nossa vida e sobre aquilo que fazemos por elas.

Sim, há momentos previsíveis. Sim, há diálogos que parecem saídos de um cartão de boas-festas. Mas há também uma honestidade emocional que surpreende. O filme acaba por ser mais doce do que se espera, com uma mensagem que vai além do romance e toca na importância das relações que nos moldam, sejam elas amorosas, familiares ou de amizade.

Visualmente, cumpre o imaginário natalício: luzes quentes, ambientes acolhedores e aquela atmosfera mágica que só o Natal consegue justificar sem parecer exagerada. É confortável, é simples e sabe exatamente qual é o seu público.

No fundo, Ghosting: The Spirit of Christmas é daqueles filmes que não promete revolucionar o cinema, mas entrega uma história sincera, com coração e com personagens fáceis de gostar. Ideal para quem quer sentir aquele quentinho emocional típico da época que ainda vem longe, e lembrar-se de que o amor pode ter muitas formas, algumas mais inesperadas do que outras.

Tropecei no filme este fim de semana no AXN White, por isso é só andarem um pouco para trás, ou ir ao gravador ver se ele lá está. Não colocámos o link para o trailer, porque não encontrámos nenhum, o que aparece são pessoas a comentar o filme, mas depois tem muitos spoilers, e nós não queremos isso 🙂

Quem tem medo do Género?

Livro | Ciências Sociais

16 de Fevereiro de 2026

Quem tem medo do Género? de Judith Butler, lançado pela Orfeu Negro em 2024 não é apenas um livro, é quase um convite urgente a pensar. E a pensar a sério. Num mundo onde as discussões sobre género se tornaram campo de batalha política, Butler entra sem medo, com clareza e uma lucidez impressionante, para desmontar confusões, medos e discursos fabricados.

O que torna este livro tão poderoso não é só o tema, mas a forma como ele nos obriga a sair do piloto automático. Butler mostra como o “pânico do género” não nasce do nada, é construído, alimentado e usado como ferramenta política. Ao longo das páginas, percebemos que muitas das narrativas conservadoras que parecem espontâneas são, na verdade, estratégias para controlar corpos, limitar identidades e restringir liberdades. E esta perceção muda tudo, porque aquilo que compreendemos, conseguimos questionar, e aquilo que questionamos, já não nos domina.

Apesar da densidade intelectual, há algo de muito vivo neste livro. Não é uma leitura fria nem distante. É quase como ouvir alguém a desmontar, peça por peça, um mecanismo que sempre esteve à nossa frente mas que nunca tínhamos visto por dentro. Butler escreve com rigor, mas também com intenção, quer que percebamos, quer que pensemos, quer que resistamos.

Ler Quem tem medo do Género? hoje é particularmente importante. Num tempo em que discursos simplistas ganham força, e em que a liberdade individual volta a ser posta em causa em vários pontos do mundo, este livro oferece algo raro, compreensão profunda. E compreender é o primeiro passo para agir.

Não é apenas um livro para quem estuda género ou filosofia. É para quem quer perceber o presente. Para quem recusa respostas fáceis. Para quem acredita que pensar ainda é um acto de liberdade.

E talvez seja isso que torna este livro tão necessário, ele não nos diz apenas o que está a acontecer, ajuda-nos a perceber porquê. E depois de ver, já não dá para “desver”.

Feel Good

Série | Romance | Drama

09 de Fevereiro de 2026

“Feel Good” é daquelas séries que parecem leves… mas dão um soco emocional quando menos esperas. Criada e protagonizada por Mae Martin, mistura comédia, romance e drama de forma super honesta, quase desconfortável às vezes, mas é exatamente isso que a torna viciante.

A história segue Mae, comediante em recuperação de dependência, que se apaixona por George. O que podia ser só mais uma rom-com transforma-se numa série sobre relacionamentos reais, inseguranças, identidade e vícios emocionais. Nada aqui é perfeito e ainda bem.

A série brilha porque parece verdadeira. Os diálogos são naturais, às vezes awkward, e as personagens têm falhas mesmo humanas. A relação entre Mae e George não é idealizada é intensa, confusa e por vezes tóxica, como muitas relações reais. Há humor, mas também momentos pesados sobre dependência, trauma e autoestima.

Além disso, os episódios são curtinhos (~25 min), o que faz com que se veja super rápido (perigo: não conseguir largar e ter outras tarefas para fazer).

Nem toda a gente vai gostar do estilo meio “cringe” e emocionalmente exposto. A série é íntima e às vezes desconfortável, não é aquela comédia leve para desligar o cérebro. Se queres algo tipo sitcom feliz, isto pode parecer pesado.

“Feel Good” é pequena em duração mas grande em impacto. É sensível, realista e diferente do típico romance televisivo. Não é para todas as pessoas, mas quem entra na vibe… fica agarrada, porque é curta, intensa e demasiado real para ignorar.

Infelizmente só está disponível na Netflix, o que significa que não é gratuita, sorry.

28 Discursos sobre Direitos LGBT

Ciências Sociais e Humanas

02 de Fevereiro de 2026

Se achas que já sabes tudo sobre a luta pelos direitos LGBTI+ em Portugal… este livro vai fazer-te repensar muita coisa. 28 Discursos sobre Direitos LGBT em Portugal reúne momentos históricos que marcaram a forma como hoje entendemos igualdade, visibilidade e resistências no nosso país. Através de 28 textos que vão desde poemas e manifestos até discursos políticos e ativistas, entendemos como a população LGBTI+ passou de ser praticamente invisível à conquista de direitos que hoje (felizmente!) existem, como o casamento civil igualitário e a lei da autodeterminação de género, mas que foram batalhas duríssimas para conquistar, e que estão a ser postas em causa neste momento.

Este não é “só mais um livro académico”. É um documento vivo e pulsante que nos lembra que a linguagem muda, que os nossos conceitos evoluem e que, no fundo, foram as vozes de pessoas reais a empurrar a sociedade para a frente. É um livro que, mesmo com pouco mais de 100 páginas, consegue fazer-nos sentir o peso histórico e afetivo de cada palavra ali registada.
Portugal vive um momento crítico com eleições presidenciais à porta e candidatos com discursos conservadores e extremistas a ganhar visibilidade, é por isso, mais importante do que nunca relembrar quem somos e como chegámos até aqui. Este livro não é apenas história, é uma ferramenta para pensar o presente e construir um futuro onde direitos não sejam negociáveis.

O Centro de Documentação Gonçalo Diniz é uma das referências em Portugal quando se fala de produção e preservação de materiais sobre a história LGBTI+. Mantido por voluntariado e ligado à ILGA Portugal, o centro tem uma grande coleção de livros, documentos, vídeos e materiais que explicam não apenas a luta, mas também a vivência quotidiana da comunidade LGBTI+ no nosso país.
Podem adquirir o livro em formato e-book na WOOK/Bertrand e em formato físico em lojas como Amazon.

Este livro é daqueles que te deixa a pensar, que te faz querer partilhar excertos, que merece ser lido agora, e relido daqui a uns anos para veres o quanto ainda temos (infelizmente) para avançar. Se queres perceber melhor de onde vêm as conquistas e o que ainda está por fazer, 28 Discursos é leitura obrigatória.

Certain Women

Filme Drama

27 de Janeiro de 2026

Certas Mulheres (Certain Women, 2016) é um drama subtil e profundo baseado em três contos da autora Maile Meloy. O filme acompanha, de forma poética e muito humana, a vida de três mulheres cujas histórias, embora aparentemente desconectadas, se entrelaçam pelas emoções que partilham, luta, frustração, desejo, solidão e a busca por significado nas pequenas coisas da vida.

Estas personagens não são “super-heroínas” nem figuras aspiracionais de cinema comercial. São mulheres reais, com medos, falhas e desejos que nos falam diretamente e que nos fazem pensar: “Eu já senti isto.”

O que torna o filme especial é a forma como nos convida a ver para lá do óbvio. Não se trata de grandes reviravoltas ou de histórias de amor épicas, mas de momentos quietos que dizem muito sobre frustração pessoal, e como nos sentimos moldar por aquilo que esperamos e pelo que realmente recebemos da vida; sobre conexões humanas inesperadas e empatia silenciosa, em vez de grandes discursos emocionais.

O filme ensina-nos a ouvir olhares, silêncios e gestos aparentemente banais, mas carregados de significado. É um filme que pede atenção e paciência, porque a sua força está nos detalhes, nos gestos e nas paisagens vastas.

Para quem tiver curiosidade, pode aceder ao filme na ANX White, que eu tropecei nele recentemente por lá.

António Variações

Livro Biográfico

20 de Janeiro de 2026

Ler António Variações – Uma Biografia é como ouvir um dos primeiros discos do Variações com os nossos próprios olhos, é inesperado, vibrante e cheio de personalidade. Este livro saiu em 2020 pelas mãos da editora SUMA, chancela da Penguin Random House, e consegue transformar uma biografia musical numa experiência visual e narrativa que nos apanha à primeira página e não nos larga até à última.

É um livro especial, porque não é apenas um texto sobre a vida de António Variações, mas um diálogo entre a palavra e a imagem. A narrativa de Bruno Horta traz-nos um António que foi mais do que um ícone pop. Remete-nos para um homem estranho no seu tempo, solitário, inquieto e cheio de contradições, que viveu à margem das movimentações culturais de Lisboa nos anos 80 e se reinventou sempre que pôde.

As ilustrações de Helena Soares são fantásticas e pensadas como parte integrante da experiência de leitura, dando vida ao livro. Cada página parece respirar o espírito colorido e ousado do cantor, com cores vibrantes, padrões inesperados e imagens que parecem explodir com energia pop, tal como era o próprio Variações.

O livro tem um ritmo que lembra uma playlist musical, com “faixas” que nos levam da terra natal de Variações à sua chegada a Lisboa, às dificuldades, aos sonhos, às músicas e ao legado que deixou. Tudo isto acontece enquanto vamos descodificando a sua personalidade, e os factos da sua vida com um olhar fresco e moderno.

Quem pensa que biografias são aborrecidas esqueça isso. Esta é uma obra que seduz quem ama música, design, história cultural e quem simplesmente gosta de histórias humanas contadas com alma e criatividade. É inteligente sem ser pesada, estética sem ser vazia, e faz-nos sentir que, mesmo quando uma vida é breve, o impacto pode ser enorme.

Se queres uma biografia que não te faça adormecer, mas uma narrativa visual e textual que pulsa como um bom álbum, este livro é para ti. Um verdadeiro tributo literário e gráfico a um dos nomes mais únicos da música portuguesa.

Frida Kahlo

Filme Biográfico

05 de Janeiro de 2026

Se ainda não viste Frida, prepara-te, não é só mais um filme sobre uma pintora famosa, é uma lição de vida com atitude, paixão e coragem. Este filme biográfico conta a história de Frida Kahlo, uma mulher que não deixou ninguém definir quem ela era ou o que podia fazer, mesmo quando o mundo insistia em lhe fechar portas e humilhar corpo, mente e arte.

O que torna Frida tão especial? Primeiro, ela viveu sempre de acordo com a sua própria verdade. Frida não se calou perante normas sufocantes, nem à frente do marido, nem da sociedade, nem das expectativas que as pessoas tinham dela. Ela escolheu ser ela mesma, com tudo o que isso implicava, fosse amor, dor, luta, bem como o controlo da sua própria narrativa.

Frida enfrentou dores físicas terríveis depois de um acidente, e ainda assim transformou sofrimento em arte poderosa e cheia de significado. Transformou desvantagens em força, e isso é algo muito importante a reter, as nossas experiências difíceis podem, alimentar o nosso poder e identidade.

Ela questionou o patriarcado, a política e o papel da mulher. Frida representa a liberdade individual, a ideia de que a tua identidade não tem de se encaixar num molde fixo. E isso faz-nos querer levantar, questionar e lutar por aquilo em que acreditamos também. É um filme que não só te inspira a pensar grande, como te mostra que a força de vontade pode mesmo empurrar-te para além das expectativas.

O filme que conta com a presença fabulosa de Salma Hayek, no papel de Frida, está atualmente disponível no catálogo da Netflix (Portugal), caso tenhas subscrição.

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