
Estou à espera. Estou sempre à espera. A espera cola-se a mim como uma segunda pele. Depois do verbo nascer, aprendi o verbo esperar. Não foi ensinado. Foi herdado. Do ventre para a vida. Espero de pé. Espero deitado. Espero em silêncio. Esperei para nascer. Grito por dentro. O chão não me reconhece. Está gasto de me sentir o peso. São círculos, são passos invisíveis. São passos que não terminam. Caminho horas de um lado para o outro. Converso com os cantos da casa, que não cantam. Pinto segredos nas plantas que se recordam de ti. Sentem falta de ti. Do teu cheiro. Da tua voz. Dos teus dedos. Dos teus olhos. Fumo cigarros que me devoram por dentro. Sou amigo das horas da noite, que parecem, não existir. Esperar é viver num tempo sem dono. É ser corpo sem relógio. É estar ausente de ti. É estar ausente de mim. Os ponteiros de todos os relógios morreram. As mãos guardam a roupa preta. As pernas chegaram agora do seu funeral.
Somos dois homens. Somos apenas dois homens. Os homens que amam homens também esperam. Os homens também choram. Vejo que os homens também desaparecem. Sou o eco de todos os segundos que não chegam. O som da campainha rouca. A respiração suspensa. A pausa. O intervalo. O vazio. O nada. Sou a ligação entre duas carruagens de comboio, onde o tempo adormeceu suspenso. Estou há 24 horas à tua espera. Estou há 24 horas à espera de um telefonema. De uma mensagem. De uma palavra. De uma vírgula. De um sussurro. De um suspiro. De um grito. Que o mundo acabe. Onde estás? Desapareceste. Olho vezes sem conta o telefone, que me ignora. Num silêncio gasto pelos meus olhos. Perdi-os. Perdi os olhos. Foram esmagados pela pelicula do telemóvel, gasta de tanto esperar. Deixei de existir? O teu silêncio é a tua barreira?
Há cinco horas atrás, decidi acabar contigo. Como é que eu te vou dizer que acabámos? Se tu não sabes, não posso acabar contigo. De que me adianta cortar ligação se estamos desligados? A solidão é maior do que eu. Enquanto espero, existo. Enquanto espero, ainda te tenho. Se desistir de esperar perco-te. Esperar é o que me resta para dar tiros na solidão. Quero falar-te do amor dos homens que gostam de homens. Os homens também amam. Eu sou um homem. Eu sou um homem que ama um homem. Sonho o teu corpo. Entras. Numa mistura de braços, desenhas desculpas no ar. Desculpas. Assim. No plural. Como um corpo de bailado. Não é desculpa. Desculpas. Pincéis que vomitam desculpas, não amam. Têm medo. Medo de amar. É assim que se diz. Medo de amar. Quero ver-te a saltar à corda. Quero ver-te voar. Deixas as asas à porta e aqui não te aventuras na entrega da vontade, sem medo. Os corajosos amam.
É preciso coragem para amar. É assim que se diz. É preciso coragem para amar. Os dedos já não sangram. As cicatrizes desenhadas, testemunham todos os cacos que apanhei. Copos. Fiz coleção de copos. Loiros, morenos, negros e às pintinhas amarelas. Não renego nenhum deles. Nenhum me fez correr na direção inversa à meta. Guardo todos os cacos em mim para que as artérias não percam a memória dos sentimentos. Não uso chaves, nem trancas, nem sistemas de segurança. Os braços estão abertos, sem que nenhuma pena caia ao chão. O miocárdio continua inclinado para esquerda à tua procura. Abro as cicatrizes e desenho-te a sangue rotas nos mapas escondidos na gaveta mal fechada. Aqui em casa, as gavetas e as portas dos armários não se fecham. Tens caminhos. Tens estradas e a minha porta aberta com o teu nome cravado. Retiro os restos de madeira das unhas.
Sento o corpo. Sento o corpo sem saber onde o sento. Já não o sento. Já não o sinto. Os olhos procuram na janela, a quantidade de homens, que tal como eu, estão também eles, à espera. Quantos somos? Quero que ecos de gritos viagem pela cidade. Esperamos juntos. Todos juntos. Juntos, não estaremos sozinhos. Continuaremos à espera. Mas não estaremos sozinhos. Sou um homem. Sou um homem que ama um homem que desapareceu. Tu vais ligar-me. Tu vais ligar-me. Tu sabes que eu estou à espera. Tu sabes que eu estou à tua espera. Estou sempre à espera. Tu vais ligar-me. Tu vais ligar-me. Tu sabes que engoli o telefone na fome de ti. Tu vais ligar-me. Tu vais ligar-me. Eu sei que tu me vais ligar. A esperança é a última a morrer. A Esperança é a nossa vizinha, do segundo andar. A Dona Esperança ainda não morreu. Enquanto ela estiver viva, tenho esperança. Estou à espera. Estou sempre à espera. Estou à tua espera. Eu e a Esperança. Talvez ela me conte histórias das mulheres que decidiram deixar de esperar e eu aprenda alguma coisa.

Os segredos pesam como pedras molhadas. Os segredos são fios de lã que lhe costuram a boca. Aos 14 anos, os segredos partem balanças. Miguel, olha a hora. Ouve-se. A mulher do pai não lhe conhece os mistérios. No quarto, um poster de um cantor qualquer, cai da parede. Oito da manhã. A tortura acorda cedo. As mãos tremem. As mãos apertam com muita força os cordões dos ténis. As mãos apertam os cordões, em nós que vivem na sua garganta. A escola. Os portões altos. O som do ferro que se fecha atrás dele. Uma prisão? A sentença. As suas pernas tremem. As suas pernas tremem ao atravessarem os corredores da escola. A boca não fala. A boca não sorri. A boca teme. Paredes estreitas. Risos largos. Olhares de lâmina. O pesadelo da guerra sem trincheiras. A casa de banho. Este cheiro nauseabundo, onde a vergonha vem morrer. O esconderijo. A única morada segura. O lugar secreto onde os olhares não lhe medem o corpo. O único lugar onde se respira, apesar do cheiro. A ironia do último suspiro, atrás da porta lá ao fundo, da última casa de banho dos rapazes. O silêncio abraça o seu corpo. O corpo sentado no chão, aguarda a campainha de salvação.
São nove da noite. Miguel, o jantar está pronto. A mulher do pai não sabe que ele está sentado no chão, encostado à cama. Aquele corpo comprido aninhado torna-se tão pequeno como o quarto a meia luz. Num quarto pequeno, ainda se pode sonhar. Um dia. Talvez um dia. Talvez amor. Talvez aquilo. Talvez não. Amar é proibido. Escreveram os seus dedos magros num caderno, que esconde debaixo da cama. Não é um caderno de palavras. É um caderno de sonhos. É um caderno de desenhos. As mãos são pincéis que sonham corpos que se procuram. Os corpos tocam-se na delicadeza de quem voa para lá das paredes do pequeno quarto. Os olhos desenham aquilo que os dedos nunca viram. Cada traço é a promessa que o mundo não verá cumprir. Carrega a sensibilidade rara, daquelas que transformam a dor em beleza. Mas esta, está condenada a ficar enterrada no quarto, para sempre. A tristeza, silenciosa, consome o que resta de luz. Os lábios recebem as lágrimas doces de um rosto amargo. O segredo fica preso dentro da jaula da boca. Não se conta. Não se pode contar.
Uns olhos espreitam. Amiga ou colega de escola? Ela descobre o segredo guardado algures no seu telemóvel do Miguel. É loira e coleciona os sorrisos da escola inteira. Encontra mensagens. Guarda a prova como uma faca. Onze da manhã. Uma nova publicação nas redes, que de sociais têm muito pouco. O rosto de Miguel. Ao centro apenas uma palavra. Gay. As letras de condenação. O chão desaparece. É vestido de olhares. É carregado de insultos. Mensagens de ódio. Ameaças de morte. O riso público. O medo.
Jovens LGBTI+ tentam mais o suicídio do que jovens heterossexuais. Isto não é estatística, é predição.
Um dia, o corpo é trancado na casa de banho da escola. São mãos que lhe arrancam as vestes. Sãos mãos que lhe seguram as mãos. São gargalhadas que enchem o ar. São gritos não ouvidos. É o medo. É hoje. Hoje perco o meu corpo. Pensa. Hoje perco o meu corpo. Sim. A frase é essa. É assim que se diz. Ninguém ouvia. Quem ouvia, ria. À sua frente está o valente. Baixa as calças. É isto que tu queres? As gargalhadas bêbadas de insultos, ecoam no pequeno cubículo. Hoje vais ficar com um andar novo. Um funcionário da escola entra. Viu. Sorriu. A ver se ele aprende a ser homem.
Quando a violência é testemunhada por uma pessoa adulta e ignorada, não é bullying. É cumplicidade.
O corpo conseguiu fugir. O medo. O Miguel deixa de ir à escola. Deixa de comer. Deixa de se levantar. Deixa de desenhar. Deixa de pintar. Fica doente. Os médicos perguntam. Ele cala. O pai e a madrasta questionam. Ele cala. A vergonha é a mordaça das vítimas. Mas o ódio não dorme. Mensagens. Ameaças. Dias sem ar.
ILGA revela que 64% dos jovens LGBTI+ já sofreram de bullying. Isto não é exceção. É regra silenciosa.
Abril de 2012. Na garagem de casa, o Miguel faz o último nó, mas não nos ténis. Um nó que não se desfaz. A madrasta encontra-o na manhã seguinte pendurado. Um rapaz. 14 anos. O nono ano por acabar. Um futuro roubado. A isto chama-se violência. Isto chama-se homofobia. Isto chama-se morte anunciada. Se não gritarmos agora, o próximo nó já está a ser dado. Miguel é o artista que o mundo perdeu.
*Inspirado numa história verídica.

O café dos amigos. Diz ele. O café dos amigos. Uma bandeira arco-íris à porta. Tapete de boas-vindas. Todas as cores, todos os corpos, todos os sonhos. Final da tarde, sempre o mesmo ritual. Ele senta-se. A mesa é sempre a mesma, a do fundo. Pede um café curto. Aprecia as plantas que se misturam o papel de parede dos anos 50. A chávena junta gargalhadas, pequenas dores, acontecimentos recentes. Ali estão os corpos da amizade, dos cafés ao final da tarde. Na mesa escreve-se o jornal íntimo das suas vidas. Notícias de amor, promessas ainda a germinar, pesadelos que se partilham em segredo. Todas as caras do café têm uma cor da bandeira. Mas qualquer forma ou feitio, são bem-vindos a limpar os pés no tapete. O café dos amigos é um sítio seguro. Diz ele. O café dos amigos é um sítio seguro. Precisamos de abrigos, porém não escondidos, onde possamos beijar sem mentes afiadas a julgar. Um café como refúgio, um coração com paredes, um espaço para existir sem ser ferido.
Mas nessa tarde chegaram as botas. Não foram botas limpas no tapete. Foram limpas na bandeira. A mão é uma navalha cerrada. Garganta a gritar ódio. Olhos como punhos erguidos. A música mistura-se com insultos. Defesas gritam contra ataques. Mas nenhum ouvido escreve o ditado. As crónicas do ódio ficam pintadas no ar, invisíveis ao papel da justiça. Os homens das botas estão em todo o lado. As mulheres que amam mulheres estão em todo o lado. Os homens que gostam de homens estão em todo o lado. Mesas tombam, cadeiras choram, o papel de parede já não tem flores. É substituído por grafite vermelho, suásticas escondidas no traço, símbolos que voltam sempre que a memória adormece. O café dos amigos transformou-se num alvo de ódio. O café dos amigos já não é dos amigos. Em poucos meses ganhou muitos inimigos.
Em meses, quarenta e cinco incidentes. Quarenta e cinco golpes. Quarenta e cinco tentativas de apagar a coragem. Insultos, vandalismo, ameaças com armas, palavras cuspidas como balas. O café dos amigos já não é dos amigos. Ganhou inimigos. Ganhou cicatrizes. Ganhou medo. O café dos amigos já não é um sítio seguro. Diz ele. O café dos amigos já não é um sítio seguro. Liberdade, amor e resistência. Contra o ódio dos grupos das suásticas. Um número ecoa como código de guerra. A data deste país. Um grupo criminoso que caminha pela estrada destruindo quem é feliz. Não são apenas vozes. São punhos. Não são apenas slogans. São navalhas. Homofobia, ódio puro, embrulhado em bandeiras roubadas da história.
Neste país, a homofobia é crime sem nome. A lei diz crime. O Código Penal escreve, se o ódio for motivo, a pena cresce. Se o corpo for ferido, por ser corpo que ama diferente, a justiça deve pesar mais. Mas a lei é papel. E o papel não sangra. O papel não chora nas esquadras. O papel não treme quando escreve a ocorrência. A agressão acontece na rua. Na escola. No café dos amigos. No quarto. Num beco. O relatório chega. Perdeu-se o nome. Ofensa. Lesão Distúrbio. Onde leio discriminação?
A homofobia do arquivo desaparece. Não é registada. Não é contada. Não é estatística. O corpo diz: fui atacado porque amo. O sistema responde: foste atacado. É só. A lei existe. Mas quem a usa? Sei quem a abusa. O grupo das botas da data do país. São crescentes neo-nazis.
Existem crimes escondidos atrás das cortinas. Há mortes sem certidão. Há dores sem tribunal. E políticos são coração. Homofobia é crime. Mas é preciso dizê-lo outra vez. Homofobia é crime. Até que cada voz decore que não é insulto, não é piada, não é “só uma briga”. É crime.
Porque espaços de acolhimento, cafés com bandeiras, abraços à porta, são símbolos de vida.
E símbolos de coragem despertam o ódio. Mas também despertam a luta.

As grades partem-se. Os segredos voam. Não sei calar. 1983. Vomito a sombra dentro de mim. Delicada. Ácida. Mortal. Tatuado por dentro com o nome da morte. Eu sou a febre. Sou a peste que dança em silêncio no corpo. Sou a morte que espreita atrás dos olhos. Sou o vómito do corpo virado ao contrário. Infetado. Contaminado.
O sussurro de um arame farpado, rasga-nos a vida. Não quero sombras novas à fresta. O jornal enterra-nos vivos. Gripe? Pneumonia? Coincidência? Azar? Porque é que só morremos nós? Os homens que amam homens sós? São fantasmas. São túmulos. Esperam os nossos nomes. Histórias que sujam o amor. Abre os olhos. Não ouves a cidade a segredar? Não sentes o medo no olhar? Uma praga arco-íris? Sempre fomos doentes. Gritam as bocas da vida. Já não somos crime. Desde o ano passado. 1982. Mas ouvimos olhos ameaçadores.
Os corpos caem. Não em palavras. Em carne. Corpo, febre. Amigo, ossos de vidro. Ele, sangue na tosse. São olhos abertos depois dum suspiro. A culpa é dos corpos? Tocámo-nos demais? Amámo-nos demais? A morte vem do prazer ou do amor? Deus está cansado. O castigo de quem ama. Uma cruz sem madeira. Uma fogueira sem chama. Cancro homossexual. 1983.
Um exame. Um envelope. Uma pronúncia de dor. As mentiras são máscaras. A dor é compromisso. Um ano. Antes de ti meu amor. Antes da tua pele ser o meu corpo. Antes do mar. Antes do rio. Antes de tudo. Todos temos um passado. Enquanto os olhos acariciavam o teu sono. O veneno já dormia em mim. O sangue escrevia outra história. Silenciosa. Áspera. Letal. 1984.
Este cheiro. Cheira a fim. O vazio não tem cheiro. O vazio não tem voz. O vazio não sangra. Este cheiro. Eu? Limpar. O importante é limpar. Desinfetar. O importante é desinfetar. Cheira a culpa. Cheira a ontem. Limpar. O importante é limpar. Desinfetar. O importante é desinfetar. Até que o chão se renda. Até que a memória se cale. 1985.
Venham. O início da guerra. É invisível. O vírus. Quer pele. Quer pensamento. Eu sou exército. Estou à caça do vírus-mestre. Quando tombar. O cheiro morre. Mãos. Pés. O ar. Como é que se desinfeta o ar? Limpar. O importante é limpar. Desinfetar. O importante é desinfetar. A memória come micróbios. O amor come bactérias. Limpar. O importante é limpar. Desinfetar. Silêncio. Este não tem cor de mestre. Fala com o pano. Fala com o chão. Silêncio. HIV. O vírus ouve. Vejo reuniões clandestinas de vírus. Este cheiro. Partículas no ar. Guerra química. Sou a bomba. Hiroshima, meu amor. Sou bomba atómica. O tempo perdeu a casa. A sujidade vive dentro de mim. Este cheiro. Vem da boca do corpo. Estragado. Sou eu. Sou estragado. Sou sujo. Sou podre, como o fruto de mim mesmo. Sou quebrado, durmo nos meus cacos. 1986.
Quase bebia a loucura. Acordo em mim. Matemática. Três semanas. O tempo que o silêncio leva a fermentar no sangue. Seroconversão, dizem os médicos. O tremor sem inverno, digo eu. O único rosto. Nunca fui de muitos corpos. O corpo sempre seguro. Mas uma noite, a pele quis ser pele. Sem nenhum escudo entre as almas. Ligo-lhe. Exames e envelopes? Cada um sabe de si. Seco. Cru. A raiva escala como fogo nas margens do peito. A boca sabia. A boca calou. A boca traiu. Ele devia ter-me dito. O mundo inclina-se. 1987.
Hoje eu tenho um corpo. Hoje não sou o meu corpo. Fomos dois a girar naquela dança cega. Fui eu quem tirou as luvas. Reconheço as minhas mãos. A culpa não tem apenas uma morada. A sombra é partilhada. Foram dois corpos. Eu não estava sozinho. Cada um sabe de si. Não durmo no caixão. Não vejo a sombra nos ossos. Com morte no sangue. Sou ainda amor. Com cicatriz. Com nome. Com tudo. Sou ainda luz. Sou amor. Cada um sabe de si. Hoje estou vivo. Até na lama nascem flores. 2025

Esta carta vem dum sítio chamado amor. Não sei se existe em mapas, mas mora aqui dentro, no meu peito, no lugar onde o teu nome arde devagar. Escrevo-te de um lugar onde tudo em mim te reconhece, mesmo quando não te vejo. Onde cada palavra que digo, já tem a forma da tua boca. O amor existe. Dizes tu, com os olhos cheios da certeza, de quem veste a idade para sonhar.
Eu, desconfiado, perdido entre medos antigos e silêncios herdados, não respondo. Vou provar-te que existe. Dizes, com voz que fala e olhos que dançam. És muito bonito. Digo. Mas não é do teu rosto que falo. É o teu olhar. Tu não tens olhos. Tens peixes. Vejo peixes. Peixes que voam no meu mar. Sou um aquário por limpar. Fico quieto. Silêncio. Viajas da Terra do Nunca, até mim, meu menino perdido. Diz-me quem és. Deixa-me tocar-te nos olhos. E diz-me apenas quem és. Tocas. Fujo. Tocas. A tua fotografia. Dizes. Os teus ombros. O teu sorriso guardado numa moldura qualquer. Olhas. Desejas. Queres.
O medo parte-me os vidros da janela que dá para o Tejo. O medo de te magoar. O medo de amares uma ideia, um reflexo, uma possibilidade, um espelho, um sonho, um desejo. E fujo. Fujo de mim, de ti, da ideia. Porque amar é um risco perigoso. E eu sou um bicho hibernado na toca bem treinada. Perdi a chave. Está tudo trancado. Portas, janelas, memórias. Até as gavetas onde guardei os beijos que nunca dei. Tu, com um sorriso de quem sabe nadar em corações fechados, sussurras: Eu ensino-te a nadar. Mas eu só sei afundar. Tenho medo da água. Rebolei na onda e perdi o boné. Nos braços do meu pai, não me afoguei. Nunca aprendi a nadar.
Tenho medo do teu oceano. Tenho medo de me abrir e nunca mais voltar a ser inteiro. Tenho mãos, sorris-me tu. Tenho braços. Mas eu não tenho coragem. Fugir sempre foi mais fácil do que acreditar. Clichê? Amor. Um mês depois. Não desistes. Desistir não é um verbo a conjugar. Leio as palavras na tua boca como quem descobre um poema num idioma esquecido. A língua de homens que amam homens. Ainda se ama aos 50? Tenho idade para sorrir sozinho. Nesta língua de homens, somos peças de antiguidade. O pó já não se limpa. Tu tens idade para voar e derrapar nas nuvens. É teu filho? Podia ser. Não é. O teu corpo não tem idade e eu não sei contar. Dizes-me. 20 anos. Tens 20 anos. Que queres de mim? Quero-te a ti. Aprendes o meu dicionário. Meu bebé grande. Sorrio de vergonha ao te ouvir. E eu também sorrio contigo. Estou nervoso. Eu também. O peito. O tempo. A calma.
Quatro horas da tarde. Casa do Alentejo. Coração nos olhos. A camisa a tremer. Os meus olhos afogam-se nos teus. Vejo-te. Um sorriso onde espero nadar. Tão certo. Tão claro. Tão inevitável. Um beijo? As mãos? O corpo decide por nós. Um abraço. O calor. Nós. Não existem olhos. Não existe tempo. O mundo parou. Sem clichê. O mundo parou. O teu peito no meu peito. O meu coração no teu coração. Silêncio. Um abraço é a forma humana mais perfeita que existe. Acreditas no amor à primeira vista? Silêncio. De mão dada? A primeira vez. Não? Sim. Medo. Vergonha. Mas não largo a tua mão. Depois o rio. O rio e tu. Os meus dois amores. Um banco de jardim admira o rio. Um banco de rio, na verdade. Estamos no Campo das Cebolas. “Chegamos sempre onde nos esperam.” Segreda-nos Saramago, enquanto retira os óculos. Os teus lábios. Foges. Os narizes. Fujo. Os meus olhos. Silêncio.
Pinto-te neste momento que é só nosso. O teu peito é a minha toca. Não sei nadar. O primeiro beijo. Tremes. Os olhos fechados são água onde caminho descalço. O beijo é um contrato. Não dito. Não assinado. Mas eterno. É a promessa que o corpo faz à alma. Tu és o lugar. És o sim. És a chave do mar. Olhas para mim como quem pede licença para existir aqui. No meu corpo. No meu tempo. Deixa-me entrar. E agora? Onde estamos? Na minha cama. Descubro o teu peito. O meu rosto pintado no teu peito. Quero ser teu namorado. Vamos ser amigos especiais. Quero ser teu namorado. Dizes. O rio ainda corre. Ainda estamos de mão dada? Sim. Não me largues a mão. Não me largues a mão.
