CULTURA 2026

Quem tem medo do Género?

Livro | Ciências Sociais

16 de Fevereiro de 2026

Quem tem medo do Género? de Judith Butler, lançado pela Orfeu Negro em 2024 não é apenas um livro, é quase um convite urgente a pensar. E a pensar a sério. Num mundo onde as discussões sobre género se tornaram campo de batalha política, Butler entra sem medo, com clareza e uma lucidez impressionante, para desmontar confusões, medos e discursos fabricados.

O que torna este livro tão poderoso não é só o tema, mas a forma como ele nos obriga a sair do piloto automático. Butler mostra como o “pânico do género” não nasce do nada, é construído, alimentado e usado como ferramenta política. Ao longo das páginas, percebemos que muitas das narrativas conservadoras que parecem espontâneas são, na verdade, estratégias para controlar corpos, limitar identidades e restringir liberdades. E esta perceção muda tudo, porque aquilo que compreendemos, conseguimos questionar, e aquilo que questionamos, já não nos domina.

Apesar da densidade intelectual, há algo de muito vivo neste livro. Não é uma leitura fria nem distante. É quase como ouvir alguém a desmontar, peça por peça, um mecanismo que sempre esteve à nossa frente mas que nunca tínhamos visto por dentro. Butler escreve com rigor, mas também com intenção, quer que percebamos, quer que pensemos, quer que resistamos.

Ler Quem tem medo do Género? hoje é particularmente importante. Num tempo em que discursos simplistas ganham força, e em que a liberdade individual volta a ser posta em causa em vários pontos do mundo, este livro oferece algo raro, compreensão profunda. E compreender é o primeiro passo para agir.

Não é apenas um livro para quem estuda género ou filosofia. É para quem quer perceber o presente. Para quem recusa respostas fáceis. Para quem acredita que pensar ainda é um acto de liberdade.

E talvez seja isso que torna este livro tão necessário, ele não nos diz apenas o que está a acontecer, ajuda-nos a perceber porquê. E depois de ver, já não dá para “desver”.

Feel Good

Série | Romance | Drama

09 de Fevereiro de 2026

“Feel Good” é daquelas séries que parecem leves… mas dão um soco emocional quando menos esperas. Criada e protagonizada por Mae Martin, mistura comédia, romance e drama de forma super honesta, quase desconfortável às vezes, mas é exatamente isso que a torna viciante.

A história segue Mae, comediante em recuperação de dependência, que se apaixona por George. O que podia ser só mais uma rom-com transforma-se numa série sobre relacionamentos reais, inseguranças, identidade e vícios emocionais. Nada aqui é perfeito e ainda bem.

A série brilha porque parece verdadeira. Os diálogos são naturais, às vezes awkward, e as personagens têm falhas mesmo humanas. A relação entre Mae e George não é idealizada é intensa, confusa e por vezes tóxica, como muitas relações reais. Há humor, mas também momentos pesados sobre dependência, trauma e autoestima.

Além disso, os episódios são curtinhos (~25 min), o que faz com que se veja super rápido (perigo: não conseguir largar e ter outras tarefas para fazer).

Nem toda a gente vai gostar do estilo meio “cringe” e emocionalmente exposto. A série é íntima e às vezes desconfortável, não é aquela comédia leve para desligar o cérebro. Se queres algo tipo sitcom feliz, isto pode parecer pesado.

“Feel Good” é pequena em duração mas grande em impacto. É sensível, realista e diferente do típico romance televisivo. Não é para todas as pessoas, mas quem entra na vibe… fica agarrada, porque é curta, intensa e demasiado real para ignorar.

Infelizmente só está disponível na Netflix, o que significa que não é gratuita, sorry.

28 Discursos sobre Direitos LGBT

Ciências Sociais e Humanas

02 de Fevereiro de 2026

Se achas que já sabes tudo sobre a luta pelos direitos LGBTI+ em Portugal… este livro vai fazer-te repensar muita coisa. 28 Discursos sobre Direitos LGBT em Portugal reúne momentos históricos que marcaram a forma como hoje entendemos igualdade, visibilidade e resistências no nosso país. Através de 28 textos que vão desde poemas e manifestos até discursos políticos e ativistas, entendemos como a população LGBTI+ passou de ser praticamente invisível à conquista de direitos que hoje (felizmente!) existem, como o casamento civil igualitário e a lei da autodeterminação de género, mas que foram batalhas duríssimas para conquistar, e que estão a ser postas em causa neste momento.

Este não é “só mais um livro académico”. É um documento vivo e pulsante que nos lembra que a linguagem muda, que os nossos conceitos evoluem e que, no fundo, foram as vozes de pessoas reais a empurrar a sociedade para a frente. É um livro que, mesmo com pouco mais de 100 páginas, consegue fazer-nos sentir o peso histórico e afetivo de cada palavra ali registada.
Portugal vive um momento crítico com eleições presidenciais à porta e candidatos com discursos conservadores e extremistas a ganhar visibilidade, é por isso, mais importante do que nunca relembrar quem somos e como chegámos até aqui. Este livro não é apenas história, é uma ferramenta para pensar o presente e construir um futuro onde direitos não sejam negociáveis.

O Centro de Documentação Gonçalo Diniz é uma das referências em Portugal quando se fala de produção e preservação de materiais sobre a história LGBTI+. Mantido por voluntariado e ligado à ILGA Portugal, o centro tem uma grande coleção de livros, documentos, vídeos e materiais que explicam não apenas a luta, mas também a vivência quotidiana da comunidade LGBTI+ no nosso país.
Podem adquirir o livro em formato e-book na WOOK/Bertrand e em formato físico em lojas como Amazon.

Este livro é daqueles que te deixa a pensar, que te faz querer partilhar excertos, que merece ser lido agora, e relido daqui a uns anos para veres o quanto ainda temos (infelizmente) para avançar. Se queres perceber melhor de onde vêm as conquistas e o que ainda está por fazer, 28 Discursos é leitura obrigatória.

Certain Women

Filme Drama

27 de Janeiro de 2026

Certas Mulheres (Certain Women, 2016) é um drama subtil e profundo baseado em três contos da autora Maile Meloy. O filme acompanha, de forma poética e muito humana, a vida de três mulheres cujas histórias, embora aparentemente desconectadas, se entrelaçam pelas emoções que partilham, luta, frustração, desejo, solidão e a busca por significado nas pequenas coisas da vida.

Estas personagens não são “super-heroínas” nem figuras aspiracionais de cinema comercial. São mulheres reais, com medos, falhas e desejos que nos falam diretamente e que nos fazem pensar: “Eu já senti isto.”

O que torna o filme especial é a forma como nos convida a ver para lá do óbvio. Não se trata de grandes reviravoltas ou de histórias de amor épicas, mas de momentos quietos que dizem muito sobre frustração pessoal, e como nos sentimos moldar por aquilo que esperamos e pelo que realmente recebemos da vida; sobre conexões humanas inesperadas e empatia silenciosa, em vez de grandes discursos emocionais.

O filme ensina-nos a ouvir olhares, silêncios e gestos aparentemente banais, mas carregados de significado. É um filme que pede atenção e paciência, porque a sua força está nos detalhes, nos gestos e nas paisagens vastas.

Para quem tiver curiosidade, pode aceder ao filme na ANX White, que eu tropecei nele recentemente por lá.

António Variações

Livro Biográfico

20 de Janeiro de 2026

Ler António Variações – Uma Biografia é como ouvir um dos primeiros discos do Variações com os nossos próprios olhos, é inesperado, vibrante e cheio de personalidade. Este livro saiu em 2020 pelas mãos da editora SUMA, chancela da Penguin Random House, e consegue transformar uma biografia musical numa experiência visual e narrativa que nos apanha à primeira página e não nos larga até à última.

É um livro especial, porque não é apenas um texto sobre a vida de António Variações, mas um diálogo entre a palavra e a imagem. A narrativa de Bruno Horta traz-nos um António que foi mais do que um ícone pop. Remete-nos para um homem estranho no seu tempo, solitário, inquieto e cheio de contradições, que viveu à margem das movimentações culturais de Lisboa nos anos 80 e se reinventou sempre que pôde.

As ilustrações de Helena Soares são fantásticas e pensadas como parte integrante da experiência de leitura, dando vida ao livro. Cada página parece respirar o espírito colorido e ousado do cantor, com cores vibrantes, padrões inesperados e imagens que parecem explodir com energia pop, tal como era o próprio Variações.

O livro tem um ritmo que lembra uma playlist musical, com “faixas” que nos levam da terra natal de Variações à sua chegada a Lisboa, às dificuldades, aos sonhos, às músicas e ao legado que deixou. Tudo isto acontece enquanto vamos descodificando a sua personalidade, e os factos da sua vida com um olhar fresco e moderno.

Quem pensa que biografias são aborrecidas esqueça isso. Esta é uma obra que seduz quem ama música, design, história cultural e quem simplesmente gosta de histórias humanas contadas com alma e criatividade. É inteligente sem ser pesada, estética sem ser vazia, e faz-nos sentir que, mesmo quando uma vida é breve, o impacto pode ser enorme.

Se queres uma biografia que não te faça adormecer, mas uma narrativa visual e textual que pulsa como um bom álbum, este livro é para ti. Um verdadeiro tributo literário e gráfico a um dos nomes mais únicos da música portuguesa.

Frida Kahlo

Filme Biográfico

05 de Janeiro de 2026

Se ainda não viste Frida, prepara-te, não é só mais um filme sobre uma pintora famosa, é uma lição de vida com atitude, paixão e coragem. Este filme biográfico conta a história de Frida Kahlo, uma mulher que não deixou ninguém definir quem ela era ou o que podia fazer, mesmo quando o mundo insistia em lhe fechar portas e humilhar corpo, mente e arte.

O que torna Frida tão especial? Primeiro, ela viveu sempre de acordo com a sua própria verdade. Frida não se calou perante normas sufocantes, nem à frente do marido, nem da sociedade, nem das expectativas que as pessoas tinham dela. Ela escolheu ser ela mesma, com tudo o que isso implicava, fosse amor, dor, luta, bem como o controlo da sua própria narrativa.

Frida enfrentou dores físicas terríveis depois de um acidente, e ainda assim transformou sofrimento em arte poderosa e cheia de significado. Transformou desvantagens em força, e isso é algo muito importante a reter, as nossas experiências difíceis podem, alimentar o nosso poder e identidade.

Ela questionou o patriarcado, a política e o papel da mulher. Frida representa a liberdade individual, a ideia de que a tua identidade não tem de se encaixar num molde fixo. E isso faz-nos querer levantar, questionar e lutar por aquilo em que acreditamos também. É um filme que não só te inspira a pensar grande, como te mostra que a força de vontade pode mesmo empurrar-te para além das expectativas.

O filme que conta com a presença fabulosa de Salma Hayek, no papel de Frida, está atualmente disponível no catálogo da Netflix (Portugal), caso tenhas subscrição.

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